segunda-feira, 25 de abril de 2011

Long way up - São Paulo a Salvador com Harley

Saudações Amigos

Segue uma palhinha da:"Viagem de Harley SP - BA"
ou "Long Way Up"

Dia D -1

A chuva andou castigando o Estado do Rio e a notícia de quedas de barreiras, rodovias interditadas se multiplicavam... As últimas considerações, será que vai dar certo? As pessoas falam que isso é loucura, por que? O pessoal que vai pra Salvador está pondo motos nas carretas e seguindo de avião, por que a ovelha negra quer rodar na estrada? Ora, porque é ovelha negra! kkk
Decisão tomada, óleo trocado a FLSTC e a 883R prontas para seguir viagem. Vamos raspar plataformas, gente!



31Jan - Sampa - Campos dos Goytacazes(RJ)
O programa inicial, ficar no Rio o mínimo necessário; assim levantamos cedinho e fomos pra estrada. Por que tanta pressa em passar/sair da capital do samba? Bem, se você entrar num congestionamento da baixada fluminense, com todos aqueles caminhões e ônibus intermunicipais disputando espaço na Dutra, acrescente uma temperatura ambiente absurda que revela a coisa mais sensata, a cidade tem o nome de "Queimados", você vai entender.
Entrando na Av Brasil deparamos com o pelotão do Choque fechando os acessos e o trânsito, após alguns minutos de suor pude entender, era um bloqueio preventivo já que estavam escoltando dois caminhões baú carregados (do que?); daí pra frente seguimos no vácuo do comboio, proteção policial à disposição, é verdade que seria mais confortável se eu pudesse ter certeza que os fuzis apontados com dedos nos gatilhos estivessem devidamente travados. Coisas da Cidade Maravilhosa...



01fev - Campos dos Goytacazes - Teixeira de Freitas(BA)
Foram duas fronteiras e cruzamos o Estado do Espírito Santo, de ponta a ponta. Teria sido mais tranquilo se na região serrana não surgisse a grande questão, o que é pior? Estar na mesma estrada, mesmo sentido e mesmo horário do veículo oficial do burgomestre de Linhares que, no exercício de sua "ortoridade" força ultrapassagens absurdas ou deparar com três carretas vazias e seus felizes motoristas brincando enquanto testavam suas habilidades de rodar coladinhos em alta velocidade? Até agora não consegui decidir...
Ah! A entrada da Bahia pela BR101 merece referência especial, além das esperadas crateras, repentinamente, sem aviso prévio, as HD faziam jus ao título de "cavalo de aço", corcoveando, parece que é uma especialidade do nosso DNIT... sabe construir lombadas, e cada vez maiores, quanto à sinalização, talvez um dia... Por falar em placas fico devendo a entrada na Bahia porque não existia...
Na entrada em Teixeira de Freitas, uma surpresa, parecia que todos os mototaxistas resolveram acompanhar aquelas duas HDs estranhas no ninho, me senti parte de um filme onde visitantes montando elefantes são cercados e saudados por populares, no caso, um enxame de motociclistas...




02fev - Teixeira de Freitas - Ilhéus(BA)
Depois de umas braçadas na piscina à noite e um saboroso peixe Grudião, mais cama macia, o  amanhecer lindo e avermelhado, fiquei pensando no amigo índio... quais seriam os prognósticos? kkk
Na gaveta do Hotel Lord encontrei uma prece para "O estranho em nossa casa", algo como "...esperamos que você se sinta confortável e feliz... Quando você se for, que sua jornada seja segura. Nós somos todos viajantes, do nascimento à morte viajamos juntos para a Eternidade." Gostei...
Pegamos a Costa do Descobrimento e passamos em Monte Pascoal só pra rever as nossas raízes.
Ah! Desnecessário descrever como é voltar a Ilhéus, nada de piscina, entrar na maré à noite ainda é a melhor terapia para corpo cansado. Quer dizer, também tem suco de Cacau, sorvete de Cupuaçu, Jacá, Mangaba. Cajá e etc... kkk

03fev - Ilhéus - Salvador(BA)
Deixamos Ilhéus, foi preciso determinação... precisávamos seguir viagem. Almoço em Camamu, onde veio outra dúvida, incluir ou não, uma passadinha em Morro de São Paulo? Dúvida cruel...
Por motivos que a razão desconhece, não achei a  saída pra Valença e quando me dei conta estava na BR101, feita a correção de rumo chegamos em Valença e a 883 avisou que tinha problemas mecânicos. Pausa para verificar que ela não tinha condições de prosseguir, providenciado o estacionamento seguro, a triste ex-pilota assumiu a garupa e prosseguimos nos últimos 100km que faltavam até Salvador, pelo ferryboat de Itaparica.
O pessoal disse que a estrada era um tapete e como na Bahia sempre vai uma pimentinha, me avisaram que o ferry parava à meia noite. Entramos na estrada acelerando, até descobrir que, aparentemente, todas as pickups da região estavam no rally para chegar na mesma balsa. Até ai tudo bem, mas alguns trechos de ausência de asfalto faziam parte do percurso, então foi...
Conseguimos chegar a tempo e pegar a "Ivete Sangalo" para transpor a Baía de Todos os Santos. Chegamos em Salvador completamente às escuras, ninguém na rua, exceto veículos que desembarcaram conosco. No Hotel os hóspedes esperavam o retorno da luz para subir aos apartamentos, o pessoal da portaria não dava conta de, individualmente, abrir portas porque os cartões não funcionavam. Nos dias que se seguiram a mídia se deliciou ouvindo autoridades e especulando sobre o blackout em oito estados nordestinos.


04fev - Salvador - Bahia Road Festival
Levantamos cedo pra rodar devagar e apreciar a cidade. Os baianos deram show de organização e pontualidade, na hora marcada seguimos em comboio até a Praia do Forte, visita ao Projeto Tamar e Praia do Sauípe. Os acarajés da Praia do Forte estavam irresistíveis, comi e empanturrei... kkk
Não encontramos o amigo FRocket, só mais tarde tive notícias, mas o sol estava muito quente e a rede muito confortável... fica pra amanhã "meu rei"... kkk






05fev - Salvador - Bahia Road Festival
Encontramos o FVRod de camisa sem mangas (até então FRocket era só de armadura) e papeamos nos intervalos das suas entrevistas, sabe como é dura essa vida de popstar...
O passeio pelo Centro Histórico de Salvador foi especialíssimo, a escolta cumpriu seu papel à risca, se antecipando e fazendo o necessário para o comboio seguir sem atropelos. Rodamos pela orla e farol da Barra, Igreja do Bonfim e parada final num posto de gasolina onde a hospitalidade baiana se fez presente com variações de guloseimas quentes e geladinhas, a critério do freguês; fomos servidos por pessoas que se esmeravam no atendimento, uma profusão de acarajé, caldinho de feijão, caldo caipira, escondidinho de carne seca, sanduiches, chopp e refri, tudo free.. Como a festa era de/pra Harley, elas ganharam sua alimentação, cada uma recebeu, como brinde, 15 litros de podium para abastecimento. Nota 10! Isso conquistou meu coração! kkk
Ah! E a 883R? Bem, ao descrever os sintomas o Dr Pepper diagnosticou com apenas uma pergunta: É 2008? Resposta: - Sim. Então é rolamento! Pergunto: Rolamento? Resposta: - Sim! existem dois modelos de 883 2008, a que ainda não quebrou e a que vai quebrar o rolamento. Contou ainda que já havia trocado quatro rolamentos de 883 desde sua chegada. Ao saber isso optei por acionar o seguro e embarcar a valente sportster para sampa no dia seguinte.
Os passeios foram excelentes, mas eu esqueci que estou "desbaianizado", queimei os braços e virei um camarão... kkk

06fev - Salvador - Ilhéus(BA) via ferryboat
Levantamos cedo e pegamos "Ivete Sangalo" para Itaparica. Encontramos no ferry uma turma de cariocas fazendo o mesmo trajeto. Seguimos com eles até Nazaré das Farinhas e de lá fomos para Valença reencontrar a 883R. Primeira dificuldade, achar o guardador porque, segundo seus conhecidos, nos domingos "ele sumia". Depois foi a novela do seguro, ao ligar de Salvador a atendente jurou que, acionado o seguro, eu deveria ficar junto do veículo porque o guincho chegava em 40 minutos; tentei argumentar que estando na Bahia achava prudente uma certa tolerância com o horário, mas ela foi inflexível. De Valença, nenhum dos 0800 funcionou seja pela Vivo ou pela Oi; só resolvi o impasse ao ligar para minha "base operacional" em sampa, que fez a ponte com a seguradora. Irritante foi suportar a necessidade protocolar da empresa, a atendente insistiu que informássemos o bairro em Valença(!?!?) para facilitar a localização pelo guincho, pode? O guincho chegou em menos de duas horas, embarcamos a moto após a pilota passar suas recomendações para o motorista.
A Costa do Cacau é linda, o asfalto é bom e uma chuva forte em Itacaré serviu de refresco.
Já em Ilhéus eu me rendi à tentação, encarei com gosto uma moqueca de Aratu com muito dendê, afinal, estava no Vesúvio, o que podia acontecer? kkk Depois foi a vez de mais sorvetes de jacá, mangaba e etc...


7fev - Ilhéus
Dia de descanso, rede, maré, mordomias de hotel e jantar no Rei da Moqueca no Pontal... Fiquei me perguntando sobre o por quê deixar Ilhéus... O jeito foi me consultar com Jorge Amado, que pode ser encontrado a qualquer hora na sua cadeira privativa do Vesúvio. O Bataclan estava fechado, talvez por ser dia claro, ainda... Enquanto isso mais coco, acarajé e tapioca... kkk


08fev - Ilhéus - Caravelas(BA)
Hum! Acho que cama macia demais estraga o apetite pela estrada, foi difícil começar a repor as tranqueiras nos alforges... kkk
A Costa das Baleias é outra pista com asfalto decente e dá gosto rodar, praias,  praias e coqueirais...
O catamarã não sairia no dia seguinte para Abrolhos, assim o pessoal do hotel sugeriu um pescador que, nas horas vagas, fazia o percurso até o Recife de Fora. Concordei.


09fev - Caravelas - Recife de Fora
Logo cedo recebi o aviso que o barco chegou e já estava ancorado na praia do hotel aguardando. Mordomia total, oba! No momento em que cheguei na praia, encontrei a "nossa" traineira, deparei com um barco de pesca típico, marcas de desgaste aparentes, mas não tive tempo de avaliar se devia, ou não, prosseguir na empreitada porque minha parceira já estava na água, passando pela murada e subindo no convés(?!), penso: "onde foi que errei?". O "capitão do mar" veio nos receber e explicar os planos para o passeio, mas não lhe dei atenção, pedi os coletes, e, só depois de conferi-los, conversamos. Ele, orgulhoso fez questão de explicar que o "23 de abril" estava no mar há apenas 15 anos, o motor era um potente monocilindro, daquele usado na irrigação de agricultura. Suas explicações me gelaram o sangue nas veias, mas não dava mais para abandonar o navio... kkk
O passeio foi excelente, depois de uma hora e quarenta minutos chegamos ao Recife de Fora, o "comandante" conhece seu ofício, a maré estava baixando e ele passeava pelos recifes de coral com a serenidade baiana e a sua experiência de 17 anos no parcel. Vimos tartarugas, cardumes variados, caranguejos e moréias nas tocas, corais, peixe palhaço, ouriços e etc. Além de toda a beleza natural sentimos a exclusividade do passeio, víamos e ouvíamos apenas gaivotas que se aproximavam curiosas para tentar um almoço fácil...
O persistente e habilidoso Ederaldo mostrou a que veio, depois de uma aparente correria sem sentido nos recifes, ele conseguiu fazer um grudião se entocar e logrou êxito em pegar o bicho na unha, literalmente. Após a alegria inicial em alisar o belo peixe azul, a parceira ficou triste ao saber que o bichinho não voltaria para a água. Mais tarde a nossa conversa se estendeu sobre a decisão de se tornar vegetariana ou não...





10fev -  Caravelas - Iriri(ES)
Saindo de Caravelas, cruzamos com motocicletas de variados portes e categorias, big trails, speedy e custom, todas a caminho do Encontro Mototour Fest de Prado/BA. Pela quantidade de motos, triciclos, trailers, grupos grandes e pequenos, me fez pensar, quem sabe no próximo ano essa seja uma boa desculpa para visitar Prado? Afinal, dessa vez eu não tive tempo de saborear uma comidinha caseira na feirinha de Prado... kkk
Escapando do trânsito intenso de caminhões de Vitória, chegamos em Iriri, onde pelas referências recebidas fomos nos hospedar na pousada do PHD Pereira, que nos recebeu com simpatia e cordialidade mineira. O estabelecimento é ótimo. Ele nos indicou um restaurante onde pudemos apreciar a culinária capixaba, que continua muito saborosa.


11fev - Iriri - Sampa(SP)
Acordar mais cedo ainda, empacotar as tralhas e sair antes do café, afinal era dia de cruzar fronteiras para retornar para casa. As estradas costumam ficar mais curtas na volta, ou tem algo a ver com velocidades mais altas? Ou seria influência de ter olhado a outra mão na ida? Filosófico ou não, esses pensamentos ocuparam o capacete durante um bom tempo.
Numa parada em Itaboraí, uma surpresa, o que aconteceu com o pneu traseiro? Está careca! Quando eu sai eles estavam em bom estado, Caramba! Daí em diante, mudança de prioridade, nada de chegar mais cedo, é hora de poupar e administrar o desgaste, baixar a velocidade e chegar com segurança, sem chuva, de preferência.
No Frango Assado da Carvalho, a última parada para descanso. De saída, no céu a visão de nuvens escuras e relâmpagos. É, voltamos pra São Paulo e a recepção era de primeira, com chuva. Não queríamos, mas o bom senso mandou por as capas, pelo menos a jaqueta. Viva o bom senso! Rodamos cerca de dez minutos e entramos num temporal daqueles, parecia que o filho de Odin, Thor, queria acertar nossas cabeças com seus trovões, a tempestade de granizo se abateu, ao levantar a viseira, certeiras pedradas no rosto. Carros diminuindo a velocidade, outros parando na pista, a brincadeira foi ficando cada vez mais perigosa, não se enxergava um metro à frente, mas o não parar foi recompensado, alguns minutos depois cessou o dilúvio e chegamos a São Paulo com tranquilidade. O céu ficou vermelho de novo, pergunto: cadê o índio? kkk

Em resumo, o passeio valeu à pena, a parada da 883R em Valença foi providencial, ela avisou que tinha problemas, paramos a 300m do Hotel em que ela ficou aguardando a nossa volta; se fosse na estrada, mais à frente, poderia ser uma complicação e tanto. Temos na memória a recordação de momentos únicos, fotos de montão, "causos" pra saturar ouvidos, a 883R agora está com rolamentos novinhos, a Preciosa vai ganhar "sapatinhos" novos e assim que não restarem pelos encravados poderei começar a pensar na próxima...
Ah! Seguem bons hotéis de praia:
Ilhéus (BA) - http://www.aldeiadapraia.com.br
Caravelas (BA) - http://www.marinaportoabrolhos.com.br
Iriri (ES) - http://www.pousadabarlavento.com.br

Foram 11 noites de viagem, pouco mais de 5000km e 2000km rodados (cada moto), 40 minutos de ferryboat (duas vezes) na travessia Itaparica - Salvador e uma hora e quarenta de traineira pro Recife de Fora (duas vezes). Se você estiver com disposição para fazer o percurso, faça. Se quiser algum detalhe adicional, estou à disposição, vou fazer a planilha de abastecimento, aliás, a autonomia da 883R foi um fator decisivo no planejamento do percurso e paradas.

A parceira já está com novas idéias...

Braço